Formas de saber linguístico no cotidiano brasileiro

 

"... um saber que não se transmite, não se aprende, não se ensina, e que, no entanto, existe produzindo efeitos."

Michel Pêcheux

Esta linha de trabalho se volta para a constituição, o funcionamento e a circulação de diferentes saberes linguísticos, não necessariamente científicos, no cotidiano brasileiro: interessa pensar os saberes linguísticos cotidianos “isoladamente" ou também na relação com os saberes linguísticos “oficiais” da linguística, da gramática, da imprensa, etc.

 

As perguntas que norteiam essa linha de pesquisa foram formuladas sob inspiração dos escritos de Michel de Certeau (1980) e Eni Orlandi (1985, 2009): O que fazemos com a língua que nos é imposta? O que fazemos com essa língua imaginaria frente a língua fluida? A arte do desvio a esta língua, que nos é imposta, é uma prática que pode ser produzida por saberes linguísticos cotidianos. Tal prática é considerada aqui como uma prática discursiva (ou seja, simbólica, histórica, ideológica, política). Portanto, como uma prática que não é transparente para o sujeito e que lhe permite desviar das imposições dessa língua para fazer funcionar, numa relação de tensão e contradição, a língua que nos é negada.

É dessa maneira que considero os saberes linguísticos cotidianos: em sua relação contraditória e constitutiva com os saberes legitimados da gramática e da linguística. Nesses estudos, interessa indagar sobre o funcionamento de discursividades que atravessam várias formas saber cotidiano que os sujeitos brasileiros têm sobre a língua e as línguas. Essa indagação leva em conta os modos de constituição, formulação, circulação, bem como de nomeação e significação desses saberes, e suas relações com processos de institucionalização, divisão de sentidos, domesticação e resistência. 

Ana Cláudia Fernandes Ferreira